informações  contato  comprar 


Excertos: Apresentação por Sílvia Gabas

Um dos aspectos que me causaram uma profunda impressão desde o início de meu contato com o trabalho do Autor foi a precocidade intelectual e a profundidade de suas reflexões, característica rara em uma pessoa de tão pouca idade.

É incomum deparar-se com personalidades ímpares como esta em um mundo tão conturbado, onde o externo é extremamente valorizado e inexiste espaço para aqueles preciosos momentos de reflexão crítica e para a busca de respostas para as questões perenes, que atravessam os séculos.

Infelizmente, em sua maioria, os homens agrupam-se em manadas dóceis e obedientes. Procuram, desde sempre, entregar suas mentes ao primeiro ser disposto a conduzi-los pelo caminho da ilusão, da irrealidade, das respostas fáceis, delegando a outrem o maravilhoso dom da liberdade de pensamento.

Buscam acalmar suas consciências colocando alguém no comando de suas vidas. Afinal, a quem não pode mandar em si, só resta obedecer. E, como dizia Nietzsche, “Quanto de verdade suporta, quanto de verdade ousa um espírito?” – a maioria, muito pouco.

Incapazes de caminhar com suas próprias pernas, de centrar a responsabilidade de suas vidas em si mesmos e de suportar a angústia que este viver nos causa, optam comodamente por soluções fáceis, passando a repetir “ad infinitum” – sem respaldo científico algum – historinhas, cantilenas de ninar, as quais poderiam ser aceitas mais tranqüilamente em tempos idos, onde a ciência ainda dava seus primeiros tímidos passos, existindo terreno fértil para a ignorância e para a superstição.

Hoje, entretanto, as descobertas científicas acabaram por sepultar, uma a uma, as tolices que prevaleceram durante os últimos milênios. É inacreditável, portanto, que apesar de todos os avanços perpetrados pela humanidade, a imensa maioria de nossa raça ainda permaneça mergulhada nas águas turvas da mediocridade.

Dentro de nosso quadro contemporâneo, as religiões persistem, absurdamente, oferecendo seu dogmatismo e sua doutrina, que não permitem qualquer forma de contestação. Muito pelo contrário, a filosofia nasce quando os seres humanos começam a tentar a entender o mundo objetivamente, não pela aceitação da autoridade, mas pelo uso da razão e da experimentação, permanecendo abertos ao questionamento e à crítica, sem fechar questão sobre qualquer assunto, sobre o que quer que seja.

Deste modo, o fato de a origem da vida ser um mistério não significa que temos de criar agentes sobrenaturais para explicar o que a ciência atual ainda é incapaz de explicar totalmente. Nossa profunda ignorância a respeito do motivo de existirmos e de toda a grandiosidade e mistério do Universo não devem abrir as portas para a superstição, mas sim para o prosseguimento – deveras árduo – das pesquisas que nos levem a explicações aceitáveis, plausíveis, coerentes e fundamentadas no que é real.

É dentro deste contexto que surge este jovem pensador, já centrado em si mesmo, ocupado com as questões humanas essenciais, questões estas que, comumente, não pertencem aos indivíduos de sua faixa etária.

O livro com que ele nos presenteia é didático, técnico e altamente esclarecedor, fornecendo aos mais diferentes tipos de leitores – céticos ou espiritualistas – informações substanciais acerca da possibilidade da existência ou não de um Criador do Universo.

Principiando pelos fundamentos do ateísmo e, num crescendo contínuo, ele abarca todas as reflexões possíveis que envolvem a crença em um Deus pessoal, tentando demonstrar por que não há motivos para se acreditar em tal entidade. Posteriormente, dá continuidade à sua obra explicando quais são as conseqüências fundamentais da inexistência de Deus na vida pessoal de cada indivíduo, mas também para a humanidade como um todo.

O texto é todo pontuado pela fina ironia do Autor, que aponta as contradições pueris existentes nas crenças em deuses pessoais e toda a fragilidade dos alicerces em que se sustentam as explicações a respeito da origem e do sentido da vida que as religiões institucionalizadas nos oferecem.

Ao longo da leitura, surge sensação de estar sendo duramente desnudada dos véus e das ilusões, das quimeras que nos foram sendo transmitidas através das eras. Deste modo, é preciso que estejamos, de certa forma, preparados para suportar tal grau de lucidez e honestidade intelectual que nos vêm através das reflexões do Autor. Talvez nem todos consigam digerir tantas informações sem sentir uma certa sensação de estranhamento, como se tivessem levado um duro golpe sem saber exatamente de onde ele proveio. É necessário, em alguns momentos da leitura, um respirar mais profundo, uma divagação mais amena, como uma tentativa de suportar as verdades que saltam aos olhos daqueles que têm condições de vê-las.

Ao término do livro, os leitores receberão, como recompensa, o inevitável fim de todas as suas vãs convicções e a lição de que a melhor coisa que o homem tem a fazer é “cultivar seu jardim”, como disse Voltaire, pensador iluminista, para quem o importante era alcançar o céu na Terra , sem preocupações com qualquer forma de sobrevivência, acreditando na possibilidade da perfeição do homem, mas apenas por meio da razão .

Julgo que um pensamento que define bem a maneira como vejo o Autor em sua cosmovisão seria um aforismo do filósofo alemão Friedrich Nietzsche, que diz: “Segui os vestígios das origens. Então tornei-me estranho a todas as venerações. Tudo se fez estranho em meu redor, tudo veio a ser solidão”.

A estranheza ante si mesmo e o sentimento de solidão são o preço que pagam aqueles que anseiam pelas respostas das perguntas eternas, que pairam acima de todos os séculos.

O Autor ingressa, tão jovem, naquela trilha sem volta daqueles que deixaram para trás o caminho largo e fácil do lugar-comum, das soluções simplistas, para trilhar caminhos desconhecidos. Ele passa a usufruir, com isso, uma visão inesperadamente dilatada, que é essa benção estranha de compreender a total impossibilidade de entender o que quer que seja.

Esta intrincada tarefa, este caminhar no labirinto, cabe somente àqueles que transbordaram em coragem, genialidade e compreensão, pois “Os homens mais inteligentes, sendo os mais fortes, encontram sua felicidade onde outros encontrariam apenas desastre: no labirinto, na dureza para consigo e para com os outros, no esforço” – Nietzsche sabia-o muito bem. Como o porta-voz de muitas outras vozes, carrega agora a tocha que, no fim do caminho, outro levará.


Sílvia Gabas



secured by GeoTrust – Equifax
Cobrança F2b - formas de pagamento aceitas