Lendo e relendo seu livro, senti-me estranhamente feliz em perceber que você soube traduzir na íntegra a sensação que por toda a vida me acompanhou.
Ao lê-lo, senti um certo descompasso, que certamente foi o recrudescimento de uma inquietude que, em mim, havia se aquietado com o passar dos anos, mas que não resistiu passar por você sem despertar e extravasar.
A tocha que entreguei a você estava quase apagada em minhas mãos; eu diria que, silente, ela agonizava. Mas, em suas mãos, ela se agigantou das cinzas e voltou a brilhar em toda a sua plenitude.
Sinto-me plena de orgulho por ter em você um fiel depositário de tudo que sempre senti, mas nunca te deixei saber. Não precisei te contar: a semente germinou sem água e sem calor, pois o solo, sem dúvida, era incomensuravelmente rico e produtivo – esse solo era você, meu filho.
Tu és, meu filho, genuíno, corajoso, inteligente; não pôde aceitar as mesmices que habitam a ingênua cabeça dos supostos imortais.
Creio com toda a convicção que, dentro de você, coabitam pacificamente com seu ateísmo os mais nobres sentimentos que se possa esperar de um ser humano. Sentimentos que estão implantados em seu íntimo com a naturalidade de uma flor que pende ao acaso de um arbusto qualquer, com a inocência de uma ave canora que faz sua melodia sem estar à cata de aplausos.
Este casamento perfeito – de sua personalidade com seu ateísmo –, com tanta dignidade, pureza de sentimentos, é a verdadeira vocação corajosa de quem luta contra meias-verdades que se dizem absolutas. Isso sim é um gesto de grande amor pela humanidade.
Parabéns, pedaço de mim, em nome de todos que te amam e te rodeiam e comungam de suas idéias, pois é certo que os descrentes, eles sim, amam perdidamente suas crias – elas são sua verdadeira eternidade.
Não te prometo a vida eterna, meu filho, mas te prometo que, através de ti, através de todos os nossos descendentes, e também através de todos que comungam nossas concepções, nossos pensamentos, nossas idéias e ideais se eternizarão. |